Escolher um anticoncepcional parece simples. Na prática, quase nunca é. Você ouve uma coisa da amiga, outra na internet e mais outra da sua tia. Cada mulher que você conhece parece ter certeza absoluta sobre qual é o melhor método.
A verdade é bem mais tranquila do que isso. Não existe um método melhor para todo mundo. Existe o método que combina com o seu corpo, com a sua fase de vida e com a sua rotina.
Neste texto eu explico, em linguagem simples, como funcionam os principais métodos disponíveis no Brasil. A ideia não é entregar uma resposta pronta. É te deixar mais preparada para a conversa na consulta.
Escolher é um direito seu
Antes de falar de método, vale lembrar de algo importante. O planejamento reprodutivo é garantido por lei no Brasil, pela Lei nº 9.263/1996. Em 2022, a Lei nº 14.443 atualizou esse texto e mudou as regras da laqueadura e da vasectomia.
Na prática, o que a lei diz é simples: você tem direito à informação, ao acompanhamento profissional e ao acesso aos métodos, com liberdade de escolha.
Ou seja: a decisão é sua. O papel da médica é te dar informação clara e ajudar a encontrar o que faz sentido para você.
O que pesa na escolha
Na consulta, alguns pontos ajudam a estreitar o caminho:
- Sua idade e sua fase de vida
- Se você pretende engravidar, e quando
- Seu histórico de saúde, como pressão alta, trombose na família, passado de câncer de mama ou enxaqueca com aura, que é aquela dor de cabeça anunciada por alterações na visão
- Como é a sua menstruação, se o fluxo é intenso ou a cólica é forte
- Sua rotina, incluindo a facilidade de lembrar de um remédio todo dia
- Os medicamentos que você já usa
- Se você precisa também de proteção contra infecções
Nenhuma dessas perguntas é julgamento. Cada uma delas muda a recomendação.
Métodos de longa duração: DIU e implante
Os chamados métodos anticoncepcionais reversíveis de longa duração são o DIU, colocado dentro do útero, e o implante subdérmico, colocado sob a pele do braço. Eles têm uma vantagem grande: uma vez colocados, funcionam sozinhos. Não dependem de você lembrar de nada.
Isso aparece nos números. Segundo a tabela de taxas de falha adotada pela FEBRASGO, a pílula falha em cerca de 9% dos casos em uso típico, ou seja, na vida real, com esquecimentos e imprevistos. O preservativo externo fica em torno de 18%. Já o DIU de cobre fica em 0,8% ao ano, o DIU hormonal em 0,2% e o implante de etonogestrel em 0,05%.
DIU de cobre
É um pequeno dispositivo em formato de T, sem hormônio, colocado dentro do útero em consulta ambulatorial. O cobre torna o ambiente do útero desfavorável ao espermatozoide.
O modelo mais usado no Brasil é o TCu380A, e o Ministério da Saúde informa duração de até 10 anos. É uma boa opção para quem não quer ou não pode usar hormônio. Em algumas mulheres, o fluxo menstrual e a cólica ficam um pouco mais intensos, principalmente nos primeiros meses.
DIU hormonal
Também é colocado dentro do útero, mas libera pequenas doses de levonorgestrel, um progestagênio. Progestagênio é o nome que se dá aos hormônios sintéticos parecidos com a progesterona, que o próprio corpo produz. Ele espessa o muco do colo do útero e dificulta a passagem do espermatozoide.
Costuma reduzir bastante o fluxo e a cólica. Algumas mulheres param de menstruar com o tempo, e isso não é sinal de problema nem reduz a eficácia do método.
Em julho de 2025, a ANVISA aprovou a mudança na bula do DIU hormonal de 52 mg: como método contraceptivo, ele passou de cinco para oito anos. Para as outras indicações, como o tratamento do sangramento uterino anormal e a proteção do endométrio, que é a camada que reveste o útero por dentro, a recomendação segue em até cinco anos.
Implante subdérmico de etonogestrel
É um bastão flexível de cerca de 4 cm de comprimento e 2 mm de diâmetro, com 68 mg de etonogestrel. Ele é colocado sob a pele, na parte interna do braço, com anestesia local, em consultório e sem necessidade de internação.
Funciona de duas formas: impede a liberação do óvulo e altera o muco do colo do útero, o que dificulta a passagem do espermatozoide. Segundo a bula, protege por até três anos.
O efeito mais comentado é a mudança no padrão de sangramento, e ele varia bastante de mulher para mulher. Pela bula, cerca de uma em cada cinco usuárias deixa de menstruar, e cerca de uma em cada cinco passa a ter sangramento mais frequente ou mais prolongado. As demais ficam entre esses dois cenários. O padrão dos três primeiros meses costuma indicar como será daí em diante.
Entre os efeitos descritos como muito comuns estão acne, dor de cabeça, sensibilidade nas mamas, aumento de peso e infecção vaginal. Nada disso acontece com todo mundo, e boa parte melhora com o tempo.
Um ponto que costuma tranquilizar: o implante pode ser retirado quando você quiser, e a fertilidade costuma voltar logo depois da retirada.
Pílula, injetável e os métodos do dia a dia
Aqui entram os métodos que dependem de constância:
- Pílula combinada, que junta estrogênio e progestagênio, os dois tipos de hormônio mais usados em anticoncepção
- Pílula só de progestagênio, usada na amamentação e quando o estrogênio é contraindicado
- Injetável mensal combinado
- Injetável trimestral de progestagênio
- Contracepção de emergência, que é um recurso pontual e não um método de rotina
Eles funcionam bem, e para muitas mulheres são a melhor escolha. Só é importante entender o seguinte: quando o método depende de lembrar todo dia, no mesmo horário, a chance de falha sobe. Isso não é descuido nem culpa de ninguém. É apenas a vida real acontecendo.
Preservativo: o único que protege contra IST
Esse ponto merece destaque. O Ministério da Saúde é direto: entre todos os métodos contraceptivos, apenas os preservativos externo e interno protegem contra infecções sexualmente transmissíveis, incluindo HIV e hepatites virais.
DIU, implante, pílula e injetável evitam a gravidez. Só isso. Nenhum deles protege contra infecções.
Por isso existe o conceito de dupla proteção: usar um método contraceptivo somado ao preservativo. Não tem nada a ver com desconfiar de alguém. Tem a ver com cuidar de você.
Alguns medicamentos reduzem o efeito do anticoncepcional
Esse é um assunto que eu sempre levanto no consultório, porque nem sempre ele aparece na conversa.
Existem medicamentos que aceleram a forma como o fígado processa os hormônios. Eles podem reduzir a quantidade de contraceptivo que circula no sangue, o que compromete a eficácia. A própria bula do implante cita, entre outros:
- Rifampicina, usada no tratamento da tuberculose e da hanseníase
- Alguns anticonvulsivantes, como fenitoína, carbamazepina e fenobarbital
- Alguns antirretrovirais, usados no tratamento do HIV
- Erva de São João (hipérico), um fitoterápico vendido sem receita
Nesses casos, métodos que não dependem desse caminho no fígado, como o DIU de cobre, costumam ser alternativas mais adequadas. Quem avalia isso é a sua médica, olhando o seu histórico completo.
Então conte tudo. Remédio contínuo, remédio novo, suplemento, chá, fitoterápico. Nada é irrelevante nessa conversa.
O método pode mudar, e está tudo bem
Aos 18 anos, aos 30 e aos 45, seu corpo e seus planos são diferentes. O método que foi perfeito em uma fase pode não servir na próxima. Trocar não é fracasso. Faz parte.
Vale voltar à consulta se:
- O sangramento continua incomodando muito depois de alguns meses
- Aparece dor de cabeça diferente, forte ou persistente
- Surge dor em uma das pernas, com inchaço ou vermelhidão
- Você percebe que está esquecendo a pílula com frequência
- Seu plano de ter ou não ter filhos mudou
Nada nessa lista significa, por si só, que algo está errado. São apenas sinais de que vale a pena reavaliar juntas, com calma.
Onde encontrar
O SUS oferece gratuitamente preservativos externo e interno, pílula combinada, pílula de progestagênio, injetáveis mensal e trimestral, contracepção de emergência, DIU de cobre, implante subdérmico de etonogestrel, laqueadura tubária e vasectomia.
Em julho de 2025, duas portarias do Ministério da Saúde ampliaram o acesso ao implante: uma para mulheres de 18 a 49 anos e outra para adolescentes de 14 a 17 anos. Essa oferta está sendo organizada aos poucos, e a disponibilidade ainda varia de cidade para cidade. Vale confirmar na unidade de saúde do seu bairro o que já está disponível por lá.
Se você é adolescente, mais uma informação importante: você tem direito a atendimento com sigilo e pode ser atendida desacompanhada.
Uma conversa antes da escolha
Este texto é informativo e não substitui a consulta. Nenhum artigo consegue avaliar o seu histórico, examinar você e indicar o método certo. Isso acontece no consultório, com calma e com escuta.
Se você está em dúvida sobre qual método escolher, quer avaliar a colocação de DIU ou de implante contraceptivo, ou simplesmente sente que o seu anticoncepcional atual não está combinando com você, vamos conversar. Para consulta presencial em Araçatuba, o contato é (11) 92452-2710. Para consulta online, (11) 99106-3654.
Entender o próprio corpo é um passo essencial para a sua saúde. E escolher com informação é uma forma bonita de cuidar de si.
Fontes consultadas
- Ministério da Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 419/2025 DGCI/DESCO/SAPS/MS (implante subdérmico de etonogestrel, métodos ofertados pelo SUS, taxas de falha)
- Ministério da Saúde. Contracepção (Saúde da Mulher / Saúde Sexual e Reprodutiva)
- Ministério da Saúde. Implante contraceptivo mais moderno será oferecido no SUS
- FEBRASGO. DIU hormonal ou não hormonal?
- FEBRASGO. Bula do DIU hormonal muda indicação de 5 para 8 anos para anticoncepção
- FEBRASGO. DIU: longa ação e menos preocupação no dia a dia
- FEBRASGO. Contracepção reversível de longa ação. Série Orientações e Recomendações nº 1, 2022
- Brasil. Lei nº 9.263/1996 (Planejamento Familiar), atualizada pela Lei nº 14.443/2022
Este texto é informativo e não substitui a consulta médica. Ele não serve como diagnóstico nem como indicação de tratamento para o seu caso.


