Marcar a mamografia não precisa ser resposta a um susto. Ela pode ser só mais um compromisso do ano, como a revisão do carro ou o aniversário de alguém que você ama.
Essa é a ideia por trás do rastreamento: fazer o exame quando está tudo bem, justamente porque está tudo bem.
Aqui eu explico, em linguagem simples, o que é rastreamento, quais exames entram nessa rotina para a mama e para o colo do útero, e o que as recomendações brasileiras dizem hoje sobre idade e intervalo.
Rastreamento e investigação não são a mesma coisa
Essa diferença muda tudo, e nem sempre ela fica clara.
Rastreamento é o exame feito em quem não tem nenhum sintoma. A mulher está bem, não sentiu nada, não notou nada. Ela faz o exame porque chegou a idade e chegou a hora. O objetivo é encontrar alterações bem no comecinho, antes de qualquer sinal aparecer.
Investigação diagnóstica é outra coisa. Ela acontece quando já existe algo para investigar.
Na mama, pode ser um nódulo que você apalpou, uma saída de secreção pelo mamilo ou uma alteração na pele. No colo do útero, pode ser um sangramento fora do período menstrual ou um sangramento depois da relação. Em qualquer uma dessas situações, o caminho é marcar uma consulta para avaliar com calma.
E aqui está o ponto mais importante deste texto: quando existe um sintoma, não se espera idade nem intervalo de rastreamento.
Ou seja, se você tem 32 anos e sentiu um nódulo, a resposta não é "só depois dos 40". A resposta é marcar uma consulta. O exame até pode ser o mesmo, a mamografia ou o ultrassom, mas a finalidade é completamente diferente.
Rastreamento é rotina. Investigação é resposta a um achado.
Rastreamento do câncer de mama
A mamografia
A mamografia é o exame central do rastreamento da mama. É o único método de rastreamento com evidência de que, feito de forma organizada e repetida, reduz a mortalidade por câncer de mama na população.
No Brasil existem duas recomendações vigentes, e vale conhecer as duas.
A política pública, do Ministério da Saúde e do INCA: o rastreamento no SUS é indicado para mulheres de 50 a 74 anos, a cada dois anos. Essa faixa foi ampliada em 2025, já que antes ia até os 69 anos. O próprio Ministério deixa claro que o SUS não restringe o acesso de mulheres de 40 a 49 anos ou acima dos 74 que queiram fazer o exame, desde que sejam orientadas por um profissional de saúde sobre os possíveis riscos e benefícios.
As sociedades médicas brasileiras, reunidas na Comissão Nacional de Mamografia (CBR, SBM e FEBRASGO): recomendam mamografia anual dos 40 aos 74 anos. A partir dos 75, a decisão passa a ser individualizada, conversada caso a caso.
Por que a diferença? Porque cada uma responde a uma pergunta um pouco distinta. A política pública busca o melhor equilíbrio para a população inteira e leva em conta que todo rastreamento em massa também produz resultados alterados que depois se mostram normais, com exames a mais e algumas biópsias pelo caminho. As sociedades médicas olham para o fato de que uma parcela relevante dos casos brasileiros acontece antes dos 50 anos.
Nenhuma das duas está errada. E é exatamente por isso que essa conversa acontece na consulta, olhando para a sua história: sua idade, seu histórico familiar, suas mamas.
Mulheres com histórico familiar importante de câncer de mama ou de ovário podem precisar de uma estratégia diferente, começando mais cedo. Isso é definido caso a caso.
E a ultrassonografia das mamas?
Uma pergunta muito comum no consultório: "posso trocar a mamografia pelo ultrassom?"
Não. Os dois exames não competem, eles se completam.
O ultrassom das mamas não é exame de rastreamento populacional. Não há evidência de que ele, sozinho, reduza a mortalidade em mulheres sem sintoma e com risco habitual.
Mas ele tem papéis importantes:
- como exame complementar à mamografia em mulheres com mamas densas, que são aquelas com mais tecido glandular e menos gordura, o que deixa a imagem da mamografia mais esbranquiçada e pode esconder pequenas alterações;
- na investigação de um achado, ajudando a dizer se um nódulo é sólido ou tem líquido dentro;
- como exame de escolha para avaliar um nódulo palpável em mulheres jovens, fase em que as mamas costumam ser mais densas e a mamografia enxerga menos.
Ou seja, o ultrassom entra com pedido médico e com uma pergunta específica para responder.
Rastreamento do câncer do colo do útero
Aqui aconteceu a maior mudança dos últimos anos no Brasil, e ela é uma boa notícia.
O teste de HPV virou o exame principal
Praticamente todo câncer de colo do útero tem origem numa infecção persistente pelo HPV (papilomavírus humano), um vírus muito comum, transmitido no contato íntimo.
Em 2025, o Ministério da Saúde publicou as novas diretrizes brasileiras e o teste molecular de DNA-HPV passou a ser o exame primário de rastreamento no país. Ele procura o material genético do vírus, ou seja, busca o agente causador antes mesmo de a célula se alterar.
O que ficou definido:
- faixa etária de 25 a 64 anos, para quem tem colo do útero e já teve atividade sexual. Antes dos 25 anos o rastreamento não é indicado, porque nessa fase a infecção pelo HPV costuma ser passageira e desaparecer sozinha;
- se o teste vier negativo, o próximo é só em cinco anos. E, quando o último exame feito depois dos 60 anos vem negativo, o rastreamento pode ser encerrado;
- se vier positivo para os tipos 16 ou 18, que são os de maior risco, o encaminhamento é direto para a colposcopia, um exame que usa uma lente de aumento para observar o colo de perto;
- se vier positivo para outro tipo de HPV de alto risco, o passo seguinte é analisar as células da mesma amostra que já foi coletada. Se essa análise vier alterada, a mulher segue para a colposcopia. Se vier normal, o teste de HPV é repetido em doze meses.
O intervalo maior costuma assustar no começo. Ele existe justamente porque o teste é mais sensível: um resultado negativo é muito confiável e oferece tranquilidade por mais tempo.
Essa transição está sendo feita de forma gradual, região por região.
E o Papanicolau, foi aposentado?
Não. O Papanicolau, também chamado de exame citopatológico porque analisa as células do colo, continua tendo lugar.
Ele segue sendo o exame de rastreamento onde o teste de HPV ainda não chegou. Nessas regiões, a recomendação brasileira continua sendo dos 25 aos 64 anos, repetindo a cada três anos após dois exames anuais normais seguidos.
E ele ganhou uma função nova: ajudar a definir a conduta de quem teve teste de HPV positivo, como você leu ali em cima.
Vale lembrar que a consulta ginecológica é muito maior do que a coleta. É nela que se conversa sobre ciclo, contracepção, sintomas e a fase de vida em que você está.
A vacina contra o HPV vem antes de tudo isso
A vacina é a camada de prevenção que existe antes do rastreamento.
No SUS, o esquema atual é de dose única para meninas e meninos de 9 a 14 anos. Há ainda uma estratégia de resgate para adolescentes e jovens de 15 a 19 anos que não se vacinaram na idade certa. Esse resgate tem prazo definido pelo Ministério da Saúde e vem sendo renovado de tempos em tempos, então vale confirmar na unidade de saúde mais perto de você. Pessoas com imunidade comprometida e alguns outros grupos seguem esquema com mais doses.
A idade é baixa de propósito. A proteção é maior quando a vacina é aplicada antes do contato com o vírus.
E aqui vai um ponto que gera muita confusão: vacina e rastreamento não se substituem. A vacina protege contra os tipos de HPV mais associados ao câncer, mas não contra todos eles. Quem se vacinou continua fazendo o rastreamento na idade indicada.
Rastreamento é hábito, não reação a susto
Repare que nada do que você leu aqui depende de medo.
Rastreamento é um combinado que você faz com o seu corpo. Uma data no calendário, uma rotina que se repete, uma consulta por ano em que alguém olha para você por inteiro.
Quando a rotina existe, a maioria das notícias é simplesmente "está tudo bem". E quando aparece alguma alteração, ela costuma aparecer pequena, no momento em que há mais caminhos possíveis.
Entender o próprio corpo é um passo essencial. Cuidar dele é um gesto de amor próprio.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Cada história é única, e só a avaliação individual define qual exame faz sentido para você e quando.
Se você quer organizar o seu rastreamento com calma e sem susto, vamos conversar. Para consulta presencial em Araçatuba, o contato é (11) 92452-2710. Para consulta online, (11) 99106-3654. Será um prazer cuidar de você.
Fontes consultadas
- INCA / Ministério da Saúde: Posicionamento oficial sobre a faixa etária recomendada para mamografia de rastreio (2025)
- INCA / Ministério da Saúde: Padronização das informações para acesso ao exame de mamografia no SUS (50 a 74 anos, bienal)
- INCA: Detecção precoce do câncer do colo do útero (teste de DNA-HPV e Papanicolau, 25 a 64 anos)
- Ministério da Saúde: Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero (PCDT)
- INCA: Aprovadas as Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer de Colo do Útero (2025)
- Cofen: Ministério da Saúde publica novas diretrizes para rastreamento do câncer do colo do útero (faixa de 25 a 64 anos e intervalo de 5 anos)
- Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM): Nota de esclarecimento sobre as recomendações da mamografia
- FEBRASGO: Dia Nacional da Mamografia, recomendação de exame anual a partir dos 40 anos
- Ministério da Saúde: Calendário Nacional de Vacinação (vacina HPV4, dose única de 9 a 14 anos e resgate de 15 a 19 anos)
- INCA: Parâmetros técnicos para o rastreamento do câncer de mama (papel complementar da ultrassonografia)
Este texto é informativo e não substitui a consulta médica. Ele não serve como diagnóstico nem como indicação de tratamento para o seu caso.


